“—Papai!
—O que foi, filha?
—Estou com medo…
—Medo de quê?
—dos monstros!
—Monstros?
—É… eles estão aqui!
—Filhinha, deixe eu te dizer uma coisa: onde existe amor, não há lugar para monstros. Os monstros têm medo do amor. O amor é maior que os monstros. O amor é maior que tudo. E você é muito amada, minha flor.
—Quer dizer que onde não tem amor, os monstros vêm?
—É, querida. Você disse uma grande verdade: onde não há amor, nossos monstros, nossas feras, nossos demônios aparecem, entram e fazem moradas nos cantinhos mais íntimos do nosso ser.
Àquela altura do meu discurso metafísico sobre as implicações do conflito apocalíptico entre os monstros que habitam a imaginação fértil de minha filha recém-adotada e o amor, meus olhos - encarando-a com toda ternura do mundo - se encheram de lágrimas, enquanto os seus, verdes e límpidos como o mar de Natal sorriram pra mim ante a constatação de que o amor estava presente ali entre nós,que os monstros haviam se dissipado todos e que era hora de dormir na mais profunda paz de criança.”
Texto: Jorge Camargo
Foto: jcrossley3